quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Juro alto e desnacionalização derrubam emprego industrial

No primeiro semestre, desemprego cresce 0,7%
A importância dos resultados do emprego industrial, divulgados pelo IBGE na manhã de sexta-feira, está no fato de que junho foi o 21º mês seguido em que aumentou o desemprego no setor que praticamente determina o crescimento da economia – com a "média móvel trimestral" (um indicador da tendência – ver gráfico) caindo desde setembro de 2011.
Na mesma sexta-feira, algumas horas depois do comunicado do IBGE, a presidente Dilma declarou que "é escandaloso que alguém diga que o desemprego cresceu". Infelizmente, o desemprego ignorou o escândalo presidencial: cresceu e está crescendo. E não somente o desemprego industrial, mas a taxa geral de desocupação. O fato dos números serem baixos, não elimina o que realmente importa: a tendência.
Além disso, essa tendência aparece mais nitidamente na indústria – e, para o conjunto do país (até porque os salários são maiores, mas não apenas por isso), é muito mais importante o desemprego no setor industrial do que, por exemplo, no setor de serviços, esse saco de gatos econômico que inclui desde os bancos até as companheiras manicures...
Sobretudo quando a queda no emprego industrial (janeiro a junho comparado com o mesmo período do ano passado) de -0,74% significa uma queda de -7,75% em Pernambuco, -4,90% na Bahia, -2,40% no Rio Grande do Sul, -0,30% em São Paulo, principal parque industrial e responsável por quase 40% das vendas industriais do país, -0,37% no Rio de Janeiro e, de resto, queda do emprego industrial em todas as regiões do país, com exceção do Norte e do Centro-Oeste - salvos pela indústria extrativa e pela agroindústria -, nas quais o emprego industrial cresceu a enormidade de 0,47% desde janeiro.
Poderíamos apresentar outras comparações de períodos que mostram resultados piores ainda, mas não é necessário. De todo modo, é importante observar que ao aumento da produção física industrial no primeiro semestre (+1,9%) correspondeu, anormalmente, uma redução do emprego industrial (-0,7%). O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI) aborda a questão do ponto de vista dos empresários:
"O que ficou claro no primeiro semestre deste ano é que as decisões de quanto produzir, mesmo para o curto prazo, não foi tarefa fácil para boa parte das empresas brasileiras dos mais diferentes segmentos industriais. Daí o movimento de fortes ajustes de estoques nos meses iniciais do ano, o qual pode ser deduzido por meio da oscilação mensal dos níveis de produção industrial. (…) o emprego industrial, devido exatamente a essa debilidade produtiva, não avança. O fato é que as expectativas dos empresários industriais relativas a seus negócios precisarão ficar mais positivas e 'firmes' para que se possa observar alguma reação pelo lado do emprego industrial. Isso ocorrerá quando eles perceberem uma melhora mais significativa em seus mercados, ou ainda, quando a economia brasileira e os mercados externos se mostrarem mais favoráveis" (cf. Carta IEDI nº 584 – "Primeiro Semestre de 2013: Produção Sobe e Emprego Cai na Indústria Brasileira", 09/08/2013).
JUROS
Com um nível muito baixo de investimento público federal, com o Banco Central (BC) catapultando os juros outra vez para a estratosfera e com o dinheiro estrangeiro arrombando o país para adquirir empresas nacionais – o que significa um aumento da monopolização, das remessas de lucros e das importações – a economia está sendo puxada, há dois anos e meio, para a estagnação e o retrocesso. Os resultados do emprego industrial expressam essa situação.
Há quem prefira ignorar esses problemas – e depois colher as consequências nas ruas e nas urnas. Não achamos que seja a melhor opção. Nem que seja uma atitude séria.
O último "Relatório Resumido da Execução Orçamentária da União", correspondente ao primeiro semestre, revela que, até agora, o governo investiu, em recursos orçamentários, R$ 3,738 bilhões – uma queda de 20% em relação ao investido no primeiro semestre de 2012, que já era irrisório.
No mesmo período, o setor público passou, sob a forma de juros, R$ 118 bilhões aos bancos (isto é, 5,1% do PIB). Somente o governo federal passou R$ 108,409 bilhões em juros aos bancos, um aumento de 18% em relação ao ano passado.
Com a total complacência do governo, a mídia dos bancos promoveu a campanha da inflação do tomate e o BC aumentou outra vez os juros – e continua pretendendo aumentar, apesar de não dispor mais nem mesmo de uma falsa inflação como pretexto.
DESNACIONALIZAÇÃO
Por fim, a desnacionalização e uma taxa de câmbio criminosa destruíram elos das cadeias produtivas industriais, promovendo uma violenta "dessubstituição" de importações. O que era comprado no mercado interno, em boa parte, sobretudo no que se refere a insumos e bens intermediários para a própria indústria, passou a ser comprado no mercado externo. E apenas basta mencionar que as remessas totais para o exterior aumentaram 23,84% neste semestre – de US$ 33,857 bilhões (primeiro semestre de 2012) para US$ 41,928 bilhões – devido às remessas de lucros das filiais de multinacionais.
No entanto, disse a presidente Dilma, também na sexta-feira, que "muita gente fala assim: tem uma baita desconfiança sobre o Brasil. Agora me explica como é que uma baita desconfiança sobre o Brasil permite que em seis meses nós tenhamos US$ 30 bilhões de dólares de investimento externo direto".
A presidente, zelosa que é para ouvir opiniões diferentes, vai nos permitir uma observação para seu posterior raciocínio e reflexão: até agora os brasileiros pensavam que confiar no Brasil era confiar nos nossos recursos e na nossa capacidade. Com exceção do Bob Fields e dos tucanos, que não são exatamente brasileiros, ninguém levantara que confiar no Brasil é confiar no "investimento externo direto", isto é, no dinheiro dos bancos, fundos e empresas estrangeiras. Mas a presidente refere-se à "confiança" desses últimos no Brasil. Nesse caso, a palavra mais apropriada seria "apetite" ou "voracidade" - o que nada tem a ver com "confiança".
Talvez por essa confusão, a presidente Dilma também afirmou, em Osório (RS), na sexta-feira, que "o sinônimo de crescimento não é uma medida econômica, 'cresceu fisicamente o Produto Interno Bruto', não é isso. Tem de crescer a qualidade de vida da população".
Difícil é crescer a qualidade de vida da população sem que isso se traduza pelas mensurações econômicas – ou seja, sem que a economia, portanto o PIB, cresça. Exceto alguns poucos numerologistas, descendentes de alguns místicos ou vigaristas do passado, ninguém até hoje postulou a virtude econômica dos números por si mesmos – sua importância está em traduzir a realidade de maneira inteligível, quer dizer, para quem quer entender. Por isso é que os resultados do emprego industrial são importantes.

Fonte: Carlos Lopes/Hora do Povo

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