No primeiro semestre, desemprego cresce 0,7%
A importância dos resultados do emprego industrial,
divulgados pelo IBGE na manhã de sexta-feira, está no fato de que junho foi o
21º mês seguido em que aumentou o desemprego no setor que praticamente
determina o crescimento da economia – com a "média móvel trimestral"
(um indicador da tendência – ver gráfico) caindo desde setembro de 2011.
Na mesma sexta-feira, algumas horas depois do
comunicado do IBGE, a presidente Dilma declarou que "é escandaloso que
alguém diga que o desemprego cresceu". Infelizmente, o desemprego ignorou
o escândalo presidencial: cresceu e está crescendo. E não somente o desemprego
industrial, mas a taxa geral de desocupação. O fato dos números serem baixos,
não elimina o que realmente importa: a tendência.
Além disso, essa tendência aparece mais nitidamente
na indústria – e, para o conjunto do país (até porque os salários são maiores,
mas não apenas por isso), é muito mais importante o desemprego no setor
industrial do que, por exemplo, no setor de serviços, esse saco de gatos econômico
que inclui desde os bancos até as companheiras manicures...
Sobretudo quando a queda no emprego industrial
(janeiro a junho comparado com o mesmo período do ano passado) de -0,74%
significa uma queda de -7,75% em Pernambuco, -4,90% na Bahia, -2,40% no Rio
Grande do Sul, -0,30% em São Paulo, principal parque industrial e responsável
por quase 40% das vendas industriais do país, -0,37% no Rio de Janeiro e, de
resto, queda do emprego industrial em todas as regiões do país, com exceção do
Norte e do Centro-Oeste - salvos pela indústria extrativa e pela agroindústria
-, nas quais o emprego industrial cresceu a enormidade de 0,47% desde janeiro.
Poderíamos apresentar outras comparações de
períodos que mostram resultados piores ainda, mas não é necessário. De todo
modo, é importante observar que ao aumento da produção física industrial no
primeiro semestre (+1,9%) correspondeu, anormalmente, uma redução do emprego
industrial (-0,7%). O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial
(IEDI) aborda a questão do ponto de vista dos empresários:
"O que ficou claro no primeiro semestre deste
ano é que as decisões de quanto produzir, mesmo para o curto prazo, não foi
tarefa fácil para boa parte das empresas brasileiras dos mais diferentes
segmentos industriais. Daí o movimento de fortes ajustes de estoques nos meses
iniciais do ano, o qual pode ser deduzido por meio da oscilação mensal dos
níveis de produção industrial. (…) o emprego industrial, devido exatamente a
essa debilidade produtiva, não avança. O fato é que as expectativas dos
empresários industriais relativas a seus negócios precisarão ficar mais
positivas e 'firmes' para que se possa observar alguma reação pelo lado do
emprego industrial. Isso ocorrerá quando eles perceberem uma melhora mais
significativa em seus mercados, ou ainda, quando a economia brasileira e os
mercados externos se mostrarem mais favoráveis" (cf. Carta IEDI nº 584 –
"Primeiro Semestre de 2013: Produção Sobe e Emprego Cai na Indústria
Brasileira", 09/08/2013).
JUROS
Com um nível muito baixo de investimento público
federal, com o Banco Central (BC) catapultando os juros outra vez para a
estratosfera e com o dinheiro estrangeiro arrombando o país para adquirir
empresas nacionais – o que significa um aumento da monopolização, das remessas de
lucros e das importações – a economia está sendo puxada, há dois anos e meio,
para a estagnação e o retrocesso. Os resultados do emprego industrial expressam
essa situação.
Há quem prefira ignorar esses problemas – e depois
colher as consequências nas ruas e nas urnas. Não achamos que seja a melhor
opção. Nem que seja uma atitude séria.
O último "Relatório Resumido da Execução
Orçamentária da União", correspondente ao primeiro semestre, revela que,
até agora, o governo investiu, em recursos orçamentários, R$ 3,738 bilhões –
uma queda de 20% em relação ao investido no primeiro semestre de 2012, que já
era irrisório.
No mesmo período, o setor público passou, sob a
forma de juros, R$ 118 bilhões aos bancos (isto é, 5,1% do PIB). Somente o
governo federal passou R$ 108,409 bilhões em juros aos bancos, um aumento de
18% em relação ao ano passado.
Com a total complacência do governo, a mídia dos
bancos promoveu a campanha da inflação do tomate e o BC aumentou outra vez os
juros – e continua pretendendo aumentar, apesar de não dispor mais nem mesmo de
uma falsa inflação como pretexto.
DESNACIONALIZAÇÃO
Por fim, a desnacionalização e uma taxa de câmbio
criminosa destruíram elos das cadeias produtivas industriais, promovendo uma
violenta "dessubstituição" de importações. O que era comprado no
mercado interno, em boa parte, sobretudo no que se refere a insumos e bens
intermediários para a própria indústria, passou a ser comprado no mercado
externo. E apenas basta mencionar que as remessas totais para o exterior aumentaram
23,84% neste semestre – de US$ 33,857 bilhões (primeiro semestre de 2012) para
US$ 41,928 bilhões – devido às remessas de lucros das filiais de
multinacionais.
No entanto, disse a presidente Dilma, também na
sexta-feira, que "muita gente fala assim: tem uma baita desconfiança sobre
o Brasil. Agora me explica como é que uma baita desconfiança sobre o Brasil
permite que em seis meses nós tenhamos US$ 30 bilhões de dólares de
investimento externo direto".
A presidente, zelosa que é para ouvir opiniões diferentes,
vai nos permitir uma observação para seu posterior raciocínio e reflexão: até
agora os brasileiros pensavam que confiar no Brasil era confiar nos nossos
recursos e na nossa capacidade. Com exceção do Bob Fields e dos tucanos, que
não são exatamente brasileiros, ninguém levantara que confiar no Brasil é
confiar no "investimento externo direto", isto é, no dinheiro dos
bancos, fundos e empresas estrangeiras. Mas a presidente refere-se à
"confiança" desses últimos no Brasil. Nesse caso, a palavra mais
apropriada seria "apetite" ou "voracidade" - o que nada tem
a ver com "confiança".
Talvez por essa confusão, a presidente Dilma também
afirmou, em Osório (RS), na sexta-feira, que "o sinônimo de crescimento
não é uma medida econômica, 'cresceu fisicamente o Produto Interno Bruto', não
é isso. Tem de crescer a qualidade de vida da população".
Difícil é crescer a qualidade de vida da população
sem que isso se traduza pelas mensurações econômicas – ou seja, sem que a
economia, portanto o PIB, cresça. Exceto alguns poucos numerologistas,
descendentes de alguns místicos ou vigaristas do passado, ninguém até hoje
postulou a virtude econômica dos números por si mesmos – sua importância está
em traduzir a realidade de maneira inteligível, quer dizer, para quem quer
entender. Por isso é que os resultados do emprego industrial são importantes.
Fonte:
Carlos Lopes/Hora do Povo
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